sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O perigo das estatísticas


Estatísticas. Ah, as estatísticas....

Estudos indicam que elas são o meio usado em 87,3% das discussões da internet(*) e, geralmente, são aceitas como argumento válido.

Grupos interessados em promover o seu lado - seja afirmar sua superioridade ou demonstrar sua "vitimidade" - usam e abusam delas como prova do que estão tentando dizer. Desde aquele adolescente espinhento mostrando como rock te deixa mais inteligente até aquele ateu enjoado dizendo que países com maior IDH têm menos religiosos, passando pelo seu tio que acha que toda vez que ele usa aquela cueca listrada o Cruzeiro ganha o jogo, todo mundo repete o tempo todo o mau uso de dados estatísticos.

Ninguém lembra de demonstrar a relação de causa-e-efeito, ou causalidade para os íntimos. E sem ela, suas estatísticas podem ser falhas ou, no mínimo, mal interpretadas.

-Hã? Como assim? Minha vó sempre dizia que os números não mentem....
Pois é, mais ou menos.

Os números até que não costumam mentir (exceto o dezoito, esse é um mentiroso incorrigível), mas infelizmente, a interpretação deles geralmente é feita por humanos.  E humanos, ah, esses humanos.... esses sim, são os maiores mentirosos do universo observável.

O fato é, que se você dividir as pessoas sob qualquer critério aleatório - gordos e magros, loiros e morenos, destros e canhotos, altos e baixos, solteiros e casados, nerds e commoners, etc - e fizer uma estatística qualquer, provavelmente não vai achar um resultado idêntico entre os dois grupos. 

E se você realmente fizer isso, o jornalismo mundial, competente e sério como sempre, vai estampar nas manchetes em letras garrafais:

Extra! Extra!!!! Ciência diz que Colesterol aumenta o QI!!!!
Pesquisa determina que pessoas com problemas de colesterol são 37% mais inteligentes que a média!!!!!

(fonte da inteligência)
Isso seria um excelente exemplo de estatística sendo usada irresponsavelmente. Não me etenda mal, eu tenho 98,7%(*) de certeza que se fizessem uma estatística comparando colesterol e QI, veríamos uma correlação positiva entre as duas. Se eu fosse apostar meu dinheiro no resultado da pesquisa, minha aposta seria que pessoas com colesterol alto têm uma média mais alto de QI. Mas pra afirmar que “colesterol aumenta o QI”, não basta uma estatística. É preciso mais. Você precisa demonstrar como uma coisa é causa da outra.

Nessa hipótese, por exemplo, eu acho que nenhuma das duas é causa da outra. Tanto o colesterol alto quanto a melhor educação/formação vêm de um terceiro fator – dinheiro. Quem tem dinheiro sobrando come mais e melhor, logo tem mais chance de ter problemas de colesterol. Quem tem dinheiro sobrando também estuda mais, e em escolas melhores. É uma coincidência, mas não tem nenhuma relação direta entre colesterol e inteligência e, se você não tiver um pé atrás com dados estatísticos, pode cair facilmente nessa pegadinha e confundir sensacionalismo com ciência.

Tem também casos em que se inverte a relação de causa e efeito. Aqui no Brasil, é muito provável que a afirmação “roqueiros são mais inteligentes” tenha várias confirmações estatísticas. Pra azar dos homens de preto, no entanto, isso não é um mérito do rock em si, mas apenas do fato de pensar diferente.

Pessoas que são mais inteligentes pensam diferente. Isso quer dizer que elas têm mais chances de se distanciar de qualquer que seja a música/cultura/religião/ filosofia/etc em que foram criadas. Vale pra qualquer grupo fora do “padrão” – ateus, marxistas, otakus, etc... quanto mais você se expõe a diversas manifestações culturais/filosóficas, quanto mais você tem a “mente aberta”, mais chances você tem de adquirir um gosto diferente daquele que aprendeu com seus pais/amigos/vizinhos. Não por nenhum mérito intelectual da coisa que você passou a gostar, mas simplesmente pela diversidade de opções.

O mesmo vale pra dentro de cada grupo. Se você é roqueiro, vive cercado de amigos roqueiros, foi criado ouvindo rock, e mesmo assim desenvolveu a capacidade de apreciar uma música diferente (seja MPB ou música folclórica tailandesa), você provavelmente é mais inteligente que a média dos seus amigos que só ouvem rock, vestem rock, conversam rock e respiram rock.

Movimentos sociais são exemplos de mestres no uso irresponsável/amador/tendencioso de estatísticas. Com uma frequencia absurda e quase sempre incontestes, eles jogam a carta dos dados estatísticos sem nenhum fundamento ou argumento que estabeleça uma relação de causa-e-efeito, e a maioria das pessoas cai como patinho.

Vejamos os defensores de cotas raciais, por exemplo. Quantas vezes você já viu um argumento demonstrando COMO a cor de pele te prejudica no vestibular? Eu, pelo menos, não vi nenhuma. Só vejo estatísticas – tantos porcento dos negros estão de fora das faculdades. Tantos porcento dos universitários são brancos. Nunca alguém demonstrou uma relação de causa-e-efeito dos negros não passarem no vestibular.

Até onde eu sei, provas de vestibular passam por correção eletrônica, e as máquinas são expert em não ter preconceito de cor. Mesmo quando a correção é manual, as pessoas que corrigem as provas não fazem isso na presença dos alunos. A menos que eu esteja enganado, o professor não tem como saber se a prova que ele está corrigindo é de um negro, de um branco, de um oriental, ou de um intraterreno. A propósito, também nunca vi uma escola ou cursinho que recusasse alunos negros pagantes.

Quando a discussão sobre isso começa, todos os argumentos que já vi serem apresentados são econômicos. Falam das dificuldades financeiras, das condições de vida, da má alimentação, de ter que trabalhar pra ajudar a sustentar a família, etc. Mas ora, isso são problemas econômicos! O que causa isso não é ser negro, é ser pobre! Pra isso a solução não é cota racial, é cota social.... ainda estou até hoje esperando um único argumento que demonstre como ser negro (independente de ser pobre) prejudica alguém no vestibular.

E a resposta é sempre jogar mais estatística na mesa: “Mas os negros são tantos porcento dos pobres....”

Assim fica difícil.


(*) Fonte: ICDTO

4 comentários:

  1. Oi,cheguei aqui hoje e gostei de tudo por aqui, muito bom esses textos.Adorei!

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  2. Capciosas e desconexas as "afirmações". Me tornei ateu por conta de ser capaz de pensar sem as amarras que a maioria se presta a aceitar. Inteligente por ser ateu?... NÃO!!! Ateu por ser inteligente?... Talvez. PONTO.

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  3. Clarion, acho que tudo o que você falou não faz o menor sentido. Mas, tudo bem, eu entendo. Você tem uma mente inferior. Inteligentes mesmo são as pessoas de países com grande consumo de chocolate (como você pode perceber por essa estatística aqui, demonstrando que o consumo de chocolate de um país está ligado ao número de pessoas que ganharam o Prêmio Nobel: http://news.bbcimg.co.uk/media/images/64194000/gif/_64194593_chocolate.gif). ;-)

    Brincadeiras à parte, tá aqui uma reportagem sobre o assunto: http://www.bbc.co.uk/news/magazine-20356613
    Espero que sirva de ilustração. :-)

    Abraços.

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  4. O problema não são as estatísticas. É a interpretação que as pessoas fazem dos números

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