sábado, 6 de outubro de 2012

Beleza Negra

"Não sou racista, mas não acho negras bonitas."

É uma frase muito comum e, geralmente, sincera. A pessoa que diz isso realmente não tem nenhum preconceito no sentido de achar que negros devem ser inferiorizados ou ter menos direitos de qualquer tipo, apenas está emitindo sua opinião sincera em uma questão puramente estética (ou sexual).

Muitos achariam que não tem absolutamente nada de errado com isso,que gosto é uma questão puramente pessoal. Outros, fariam denúncias contra o racismo velado e a hipocrisia da nossa sociedade, cheios de discursos inflamados e dedos na cara.

Eu penso um pouco diferentede ambos. Essa questão me intriga. Meu "psicólogo de boteco" interior fica extremamente interessado em entender o assunto.

Antes de continuar, uma observação importante: nesse texto eu vou falar essencialmente sobre mulheres. Provavelmente tudo se aplicaria igualmente para homens, mas não só me falta vontade como sou extremamente incompetente pra avaliar beleza masculina (palavra de todas as mulheres com quem já discuti o assunto). Isso poderia até render uma bela discussão sobre machismo e etc, mas aí ja é tema pra outro dia.

 Afinal, o que levaria alguma pessoa a concluir, de forma categórica, "não acho negras bonitas"? Não é como se todas as negras do mundo fossem iguais, ou sequer parecidas, nem mesmo no tom de pele que tem infinitas variações. Por mais frustrantes que sejam clichês e chavões, não dá pra deixar de pensar em dois grandes fatores que andam de mãos dadas nessa história: Mídia de Massa, e Padrões de Beleza.

Pessoalmente, me considero uma pessoa que adora diferenças, admirador de formas de beleza exóticas, tanto a ponto de ter um fetiche por aliens. Mas mesmo eu já disse (ou pensei?) essa frase pelo menos uma vez. Tem alguma coisa errada aí.


(ou talvez eu só precise de qualquer desculpa
pra postar essa foto da Tali)


Talvez o problema esteja exatamente nisso. Estão sufocando as diferenças....

"negra"
De uns tempos pra cá, a mídia tem se visto debaixo de uma certa pressão social pra mostrar que é gente boa e não tem preconceitos. Isso tem meio que "forçado" a exposição de pessoas negras em geral em papéis mais relevantes que o negão engraçado que é o primeiro a morrer nos filmes, a tia gorda barraqueira da novela e similares. Agências de publicidade são forçadas a, de vez em quando, expor alguns negros nas suas propagandas, como se fosse uma espécie de cota racial não-declarada. Isso em geral é bom, mas tem um problema.

A mídia, as agências de publicidade, os estúdios de modelo e essa turma toda, têm aversão à diversidade. Eles trabalham com padrões, eles lucram com padrões, eles vendem padrões. Tudo que é diferente significa mais trabalho, mais despesas, mais consumidores confusos. Então eles solucionaram esse "problema" de uma forma muito simples: usando atrizes que são tecnicamente negras - na cor de pele, pelo menos - mas que se encaixam perfeitamente nos padrões de beleza de sempre.

Entram em cena escovas permanentes, chapinhas, cirurgias plásticas para afinar o nariz, lentes de contato, etc... e as "negras bonitas", as protagonistas, as modelos negras, são nada mais que cópias falsificadas dos padrões de belezas de atrizes brancas. Dê uma olhada na foto que está no início desse texto, e diga se ela não é apenas a mesma barbie loira de sempre, pintada de negra. Não, não estou fazendo aquele velho e batido discurso de beleza natural. Não é nem sequer uma mera questão de não usar escovas, lentes ou tintas. É perfeitamente possível usar todas essas coisas e ainda parecer genuinamente uma negra. Mas infelizmente, isso é mais frequentemente usado pra se fazer parecer, nas formas, uma cópia dos padrões de beleza das loirinhas de cabelo liso de sempre.

Dá pra perceber a diferença?




 E o problema com as cópias é que são.... bem.... cópias.

Apesar de eventualmente alguma mulher negra se encaixar muito bem nesse padrão e produzir um resultado bonito, uma grande parte das vezes elas vão ficar parecendo exatamente isso - uma cópia, uma fraude, uma falsificação mal feita.

E, quando você compara a cópia com o original, é praticamente inevitável concluir que a cópia é inferior. Não é racismo, não é falta de caráter, não é intolerância. É um conceito que se forma com a observação continuada e, por isso, perfeitamente compreensível.

A situação no Brasil era um pouco melhor que no resto do mundo algumas décadas atrás, porque até certo ponto sabíamos, cá do nosso jeito machista e supersexualizado, valorizar a beleza original da mulata, mas isso foi só até os padrões importados ganharem força aqui dentro e a cultura antiga virar coisa "de pobre" e "baixo nível". Uma pena, tínhamos uma lição a dar para o mundo, mas nosso complexo de vira-latas acabou foi aderindo ao modo deles.

Cabelo liso comprido, nariz pontiagudo e lábios finos não são a única forma de beleza possível. Mulheres negras têm traços únicos, formas de beleza específicas que, se soubessem explorar melhor, desenhariam identidades realmente únicas. Formas de beleza que seriam inigualáveis para suas contrapartes brancas, sem que estas ficassem parecendo meras falsificações.

Não que se trate de competição, mas de indentidade. De variedade. Como diz a frase politicamente correta, "todo mundo é bonito", mas se você ficar tentando imitar a beleza do outro em vez de explorar a sua, vai conseguir apenas resultados medianos, na melhor das hipóteses.

Mas o que alguém pode fazer?

Sinceramente, lutar contra os padrões impostos pela grande mídia pode ser uma tarefa ingrata. Ativismo é uma coisa que aborrece a maioria das pessoas, e é mais provável que formem uma opinião negativa de você por não se enquadrar do que que efetivamente revejam seus conceitos. Então eu não aconselharia você tentar mudar a cabeça de ninguém, a menos que esteja preparado(a) para toda a variedade de respostas negativas, desrespeitos, deboche, etc.

Em vez disso, deixo apenas um conselho, que vale não só para pessoas negras, mas pra qualquer um. Se quer realmente parecer bonita, não tente emular a beleza dos outros. Aprenda a explorar as suas formas, seu rosto, cabelo, etc. Use sim, maquiagem, escovas, plásticas, etc... tudo que quiser. Não dê ouvidos aos recalcados que ficam criticando beleza "artificial", mas faça isso tendo o seu corpo como perspectiva. Use as ferramentas de beleza para valorizar as suas formas, não pra tentar se transformar numa cópia de alguém que você não é.

Você vai se surpreender com os resultados.


12 comentários:



  1. Muito bom texto. E não tenha medo do politicamente correto,
    lembre-se do tipo de escória que fez esse termo se tornar pejorativo.


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  2. Ótimo texto, senhor Laffalot.

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  3. Confesso que nunca tinha pensado sobre isso, ainda mais sobre o ponto de vista exposto. Muito interessante. Ótimo texto.

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  4. Gostei do texto, e já estou seguindo o blog. Mas o q eu gostei mesmo foi da sugestão para o tipo de pessoa que se ofende fácil ou não sabe argumentar (outro site)...

    Até agora estou pensando "como nunca pensei em fazer isso?", rsss! Mas amanhã devo postar um texto "polêmico", e vou adicionar a indicação no fim da matéria. O problema é que vamos dar muito ibope p Ana Maria Praga...

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  5. Ué, Clarion, mas você não odeia mulheres bonitas? Está ensinando elas a como serem odiadas por você? hehehe.

    E não venha me dizer que existem mulheres conscientemente justas que não se aproveitam da beleza delas, porque eu sei que "Em algum lugar nos seus subconscientes maquiavélicos, elas sabem que
    se derem a menor fagulha de esperança de deixar a entender que quem
    sabe é possível considerar a hipótese de que nós temos uma chance de
    fazer sexo com elas, imediatamente podem botar todos os pseudo-machões
    de joelhos, fazendo todas as suas vontades" (fonte: pedadelo.net), então não há escapatória pra essas aproveitadoras.

    Curti a moral também de que as mulheres negras que têm que resolver o problema de elas não serem 'desejadas', faz todo sentido mesmo elas terem que se sujeitar a perder emprego, sofrer discriminação (como aquela da notícia) pra conseguir despertar nos homens vítimas do 'padrão' o valor da beleza delas.

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  6. Mirianrodriguesdesales20 de novembro de 2012 05:35

    ótimo o seu pensamento me encaixo perfeitamente ,analiso exatamente como você ,para min chega até ser uma questão de originalidade e aceitação do que se é realmente .parabéns

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  7. "Não dê ouvidos aos recalcados (...)"
    Em pensar que estava indo tudo tão bem...

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  8. Nossa q lindo,disse td...adorei

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  9. Para mim e para muita gente, as negras são bonitas, tal como são, artificiais ou naturais. Não há nada para criticar ou analisar porque as brancas ou seja "toda gente" é bonita, vocês é que precisam de Deus na vossa vida para tirar este pecado dentro de vocês. Parem de ser racistas. São pessoas como vocês que estragam o mundo.

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  10. Poxa acho que outra palavra cairia bem nesse recalcado ai!

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  11. Não concordo não. Ninguém tá fadado a ser assim ou assado, a tecnologia está aí e é para todas. O autor desse texto não demonstrou ser contra a mulher branca que tenha cabelo escuro tingir de louro e o que ele diria das brancas com cabelos crespos ou ondulados alisarem suas madeixas com progressivas e chapinha. Se é como o próprio disse, todas essas também estariam deixando de ser elas mesmas para ser uma coisa que elas não são. Pq elas podem e nós não? ah..sai fora com esse papinho...somos 51% da polupação brasileira, deveríamos é nos unir e deixar de consumir esses produtos que não usam modelos negros e negras em suas propagandas, aí as coisas mudariam. Ah, eu tb não tenho nenhum preconceito contra a beleza da mulher branca, ok!

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