sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

No Museu


Marcelo esfregou os olhos, e olhou de novo. E mais uma vez. Não adiantou. Ainda era uma tela azul, um risco vermelho e uns pingos pretos.
Se encontrasse essa pintura em casa ele ia dar uma risada e achar que seu filhinho de 4 anos andou brincando com as suas tintas. Com certeza jogaria no lixo.

"Serei eu um idiota?"
- foi o pensamento que logo veio na sua cabeça. Afinal, estava diante de uma obra de arte de Joan Miró, um dos grandes nomes do século passado. Com certeza não queria passar por esse papel de ignorante na frente dos amigos. Então olhou longamente pra pintura, fazendo uma expressão de admiração e falou:
-Oooh, mas é mesmo uma coisa fantástica! Obra de gênio, com toda certeza.

Vendo a reação do Marcelo, Felipe se sentiu um completo imbecil. Afinal, tinha olhado aquela obra de arte e não viu nada de mais. Muito envergonhado de si mesmo, ele resolveu esconder dos colegas a própria ignorância.
-Verdade, Marcelo. Que pintura admirável!

Já o André, que gostava de se passar por inteligente, foi mais precavido. Antes de sair pra exposição, tomou o cuidado de pesquisar e decorar a descrição das principais obras. Ele repetiu igualzinho tinha lido:
-Nestes trípticos de Miró a cor azul foi aplicada em vastas modulações, revelando uma sensibilidade espantosa. Nelas o azul transforma-se numa cor espiritual em que o reduzido número de símbolos primitivos utilizados, abre à nossa imaginação um horizonte muito vasto...

Todos ficaram admirados com a cultura do André. Menos ele, que estava tentando enxergar essas coisas que falou naquele quadro azul com pingos pretos...


-FIM-
Notas:
1. Qualquer semelhança com o conto "A Roupa do Rei" não terá sido mera coincidência.
2. Tanto o quadro quanto os comentários são reais.

2 comentários:

  1. Quando vou a uma exposição de arte abstrata, entendo que as obras não são figurativas, ou seja, não buscam retratar a realidade percebida de forma similar. A estratégia que uso é de entender aquela obra como uma pessoa: Sinto as cores quase de forma sinestésica, como se tivessem sabor, odor, som... experimento a obra sem tentar descrevê-la, como um fenômeno, algo que existe e não necessita ser explicado, apenas observado. Abraço.

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  2. Toda vez que vejo um quadro, uma obra de arte ou uma pintura abstrata percebo que devo fazer a mesma força para enchergar a beleza quanto tenho que esquecer meu senso critico para acreditar em deus. Na minha visão, uma pintura ou obra abstrata possui um sentido para cada um, isso quando possui. Agora, tentar convencer alguem que "aquela obra abstrata" tem tal importância pois foi realizada por um "nome renomado do sec x" é forçar a inteligência.

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