quinta-feira, 28 de julho de 2011

Dona Matilda e os ovos de ouro

Quando Dona Matilda foi buscar os ovos no galinheiro aquela segunda-feira, ela quase teve um infarto. Pra seu espanto e encanto, um dos ninhos tinha um brilho especial - dentro dele reluzia uma dúzia de ovos dourados, brilhando feito ouro.

Dona matilda não cabia em si de tanta felicidade. A primeira coisa que ela fez, lógico, foi recolher os ovos dourados com todo cuidado, trancar o galinheiro e correr pra contar a novidade maravilhosa pra família. Eles tinham uma galinha mágica! Estavam ricos!

Seu Dagoberto, o marido, era um homem simples, mas bastante equilibrado. Logo de início, não ficou tão animado assim. Sua primeira reação foi duvidar dos ovos mágicos da galinha e achar que pudesse ser algum trote ou brincadeira, quem sabe dos seus filhos ou de algum vizinho.


Lógico que a Dona Matilda ficou furiosa com a descrença do marido. Quanta negatividade, quanto pessimismo! Parecia até que o homem não queria os ovos de ouro! Eles discutiram muito naquela manhã, e dizem que a briga foi feia. Mas pela hora do almoço, como bom casal que eram, haviam chegado a um acordo. Seu Dagoberto havia concordado em dar uma festança para celebrar os ovos de ouro, daquelas festanças mesmo, que só acontecem na roça, com boi no rolete e tudo mais. Em compensação, Dona Matilda tinha que concordar em, primeiro, levar a galinha para ser examinada por um veterinário.

Claro, essa coisa toda de veterinário seria apenas uma formalidade. Dona Matilda tinha até uma certa pena do marido, com toda sua incredulidade e ceticismo negativos. Ela era uma mulher de fé, não precisava dessas confirmações mundanas. No seu íntimo, ela já tinha certeza absoluta que tinha uma galinha mágica que botava os ovos de ouro - afinal de contas ela podia sentir isso no seu coração. Então na tarde do mesmo dia ela já estava escrevendo os convites enquanto o marido colocava a Cleuzodete numa gaiola para levar pro veterinário.

No dia seguinte, Seu Dagoberto chegou com uma cara não muito boa. Ele olhou pra esposa com um misto de desânimo e decepção, e lhe faltava coragem para dar a má notícia. Mas como era um homem honrado e que não gostava de faltar com a verdade, ele encarou a patroa de frente e contou tudo.

O veterinário tinha feito todos os exames possíveis, e mais alguns. Físicos, radiológicos, laboratoriais, tudo. A Cleuzodete não tinha nada de incomum. Era uma galinha completamente normal e, portanto, incapaz de botar ovos de ouro.

"Absurdo! Que desaforo!" Dona Matilda estava inconformada com a ousadia. Quem esse veterinariozinho pensava que era? Só porque fez uma faculdadezinha qualquer o homem se achava no direito de desdenhar dos poderes da sua galinha dos ovos de ouro? Isso só podia ser inveja, porque ele não tinha uma! Além do quê - ela fez questão de frisar pro marido - a Cleuzodete é uma galinha mágica! Os poderes dela são sobrenaturais, portanto, é lógico que não podem ser detectados por meros exames científicos! Nesse momento, ela quase riu da ingenuidade do marido.

Afinal de contas, como ele explicaria os ovos de ouro? Por mais que aquele veterinariozinho invejoso quisesse, ele não podia negar que eles existiam, estavam ali! E ela já tinha enviado todos os convites, de jeito maneira que iria cancelar a festa e passar toda essa vergonha na frente da família.

Seu Dagoberto, agora mais desconfiado que antes, estava relutante. Mas a esposa já estava começando a ficar irritada com o ceticismo dele, e tudo que ele não queria era ver a mulher enfurecida. Meio a contragosto, ele concordou em manter a festa, desde que chamassem um joalheiro pra examinar os ovos.

Dona Matilda agora já estava magoada com a desconfiança do marido. Afinal, ela tinha testemunhado que encontrou os ovos, e que sentia em seu coração que eram verdadeiros! Como ele podia não confiar na palavra dela assim tão descaradamente? Por quê a palavra dela não era suficiente? Muito contrariada, ela aceitou levar um ovo ao joalheiro, mas apenas um - ela não admitia arriscar sua fortuna assim numa visita à cidade.

E assim, no dia seguinte, eles foram à cidade, Dona Matilda com o ovo muito bem escondido dentro da bolsa. Chegando à lojinha onde o rapaz trabalhava, com uma expressão de muito mistério, ela retirou o artefato e colocou sobre a mesa. O joalheiro nem precisou pegar, nem examinar o ovo. De trás do balcão, à meia distância, ele já deu seu veredito: "Isso é falso, é só uma tinta barata sobre um ovo comum".

Dona Matilda fechou a cara na hora. Quanta ousadinha, esse rapazinho imberbe querendo desmerecer seu ovo mágico assim, sem nem examinar! Ele nem olhou pro ovo direito! Ela gesticulava e apontava pro marido, denunciando o absurdo da afirmação do joalheiro.

Preocupado com a esposa, Seu Dagoberto pediu encarecidamente que o rapaz examinasse com mais cuidado, e explicasse os motivos que o levaram a concluir que era falso. Mesmo que fosse óbvio pra ele, para a esposa não era.

E assim o joalheiro fez. Por cinco minutos, ele deu uma mini-aula sobre as propriedades do ouro e esmiuçou todos os detalhes técnicos. Falou sobre a sua experiência no assunto, e até mostrou para o casal um vidrinho com a tinta dourada que provavelmente tinha sido usada. Infelizmente, no entanto, o casal era gente humilde, pouco estudada, e eles não entendiam muito quando ele falava coisas sobre densidades, superfícies e quilates.


Foi isso que deixou Dona Matilda furiosa. Rapazinho insolente! Estava falando um monte de coisas complicadas tentando confundir a sua cabeça e duvidar da verdade que ela tinha certeza em seu coração! Só podia estar em alguma conspiração com o veterinário, para tentar fazê-la passar por ridículo! Ela que não se sujeitaria a isso!


"Vamos embora desse antro, Dagoberto!"

Dona Matilda pegou furiosamente o ovo da mesa, e saiu da loja pisando duro. Pra seu azar, na saída da loja ela tropeçou na calçada, e o ovo caiu no chão, despedaçando-se como qualquer ovo comum, fazendo alguns pedaços de tinta se soltarem da casca.


O casal ficou olhando atônito por alguns minutos. Seu Dagoberto até estava feliz por finalmente acabar com essa novela, mas não ousaria dizer nada naquele momento porque sabia a dor e o sofrimento da esposa. Apenas olhou para ela, esperando alguma reação.

Dona Matilda, no entanto, não demorou muito para se recompor. Afinal, ela não deixaria sua fé se abalar por tão pouco. Até pode ser que aquele ovo fosse falso, mas ela tinha outros onze guardados em casa, e esses sim, ela tinha certeza que eram verdadeiros. Não havia a menor dúvida!

"Deixe de bobagem, mulher, vamos pra casa..."

Ah, como Seu Dagoberto se arrependeria dessa frase.

"Bobagem? BOBAGEM? É isso, então, Dagoberto? Agora você vai fazer troça do que eu acredito? Vai ficar aí se achando todo inteligentão só porque conversou com um doutorzinho e um joalheiro? Pois eu te digo uma coisa, homem: Nunca mais fale comigo nesse assunto, está entendendo? Eu exijo que você respeite a minha crença!"

Seu Dagoberto baixou a cabeça, e entrou na caminhonete. Por todo o caminho de volta ela foi repetindo, em voz alta e furiosa, o quanto tinha certeza de suas convicções, o quanto tinha ouvido histórias de ovos de ouro desde criança e o quanto tinha certeza absoluta de que era verdade. E o quanto ele não tinha o direito de desrespeitar o que ela acreditava.

Seu Dagoberto permaneceu o tempo todo calado, se espremendo no banco, e apenas acenando a cabeça positivamente a cada frase dela. Ele conhecia muito bem a esposa, e sabia o quanto não adiantaria argumentar com ela. Chegando em casa, Dona Matilda foi correndo para os preparativos da festa, com a certeza e orgulho da sua galinha dos ovos de ouro mais fortes do que nunca.

Seu Dagoberto, no entanto, ainda tinha a esperança de tirar essa ideia da cabeça da esposa, e cometeu seu maior erro. Ele entrou furtivamente no quarto, pegou um dos ovos e, com a chave do carro, raspou uma parte da tinta, revelando a casca comum por baixo. Ele correu imediatamente pra esposa, pra apresentar a prova de que os outros ovos também eram falsos.

Absurdo dos absurdos. Quanta ousadia e falta de respeito dele ter violado os ovos de ouro assim! Foi a pior briga da vida deles, e a palavra divórcio foi dita várias vezes. No dia seguinte, Seu Dagoberto, aquele insolente desrespeitoso, estava proibido pro resto da vida de tocar no assunto dos seus ovos de ouro, sob pena de ir pro olho da rua. E Dona Matilda finalmente teve sua festa, com todos os parentes e vizinhos, onde teve a oportunidade de apresentar a todos sua galinha mágica dos ovos de ouro.

Afinal, ela continuava tendo certeza absoluta que os dez ovos que sobraram eram verdadeiros.

2 comentários:

  1. Muito interessante a história, e o trágico é que acontece com muita frequência em nosso país. Claro que não com ovos de ouro, mas com todas as outras crenças que são, em sua maioria, infundadas. Crer sem o uso da razão é uma grande falha da humanidade.

    Não questionar, não duvidar é típico de pessoas sem o mínimo de escolaridade, ou de opinião própria. Vemos isso nos telespectadores da Globo. É uma lastima.

    ResponderExcluir
  2. Mais realidade e menos ficção sentimental idealista.
    Como sempre digo, religião é a desculpa mais esfarrapada para falta de capacidade e egoísmo.

    ResponderExcluir