domingo, 2 de janeiro de 2011

O "Ano do Linux" já passou!

Se você gosta de ler notícias de informática, deve estar familiarizado com isso. Pelo menos desde que existe internet, todo primeiro de janeiro tem 3 certezas: show do Roberto Carlos, promessas de regime e personalidades da internet prometendo que esse é o "Ano do Linux".

Aí saem as matérias explicando com seus argumentos já meio batidos como as evoluções recentes do Linux vão inevitavelmente quebrar a hegemonia do Windows nos computadores e explicando as razões técnicas porque esse é exatamente o ano em que a virada vai acontecer, e justificando porque você deve acreditar que dessa vez a previsão vai dar certo.

"Afinal quem será capaz de resistir ao novo
Ubuntu com Wayland e Unity?"


Dessa vez, quando você ler essa previsão dizendo que 2011 vai ser o ano do Linux, vai ter mais um motivo pra achar a matéria ridícula. O ano do Linux já passou, e foi 2010. Durante o ano de 2010 os sistemas Linux avançaram vertiginosamente rumo à dominância na internet, conquistaram uma situação confortável e pavimentaram o caminho para a dominância absoluta em número de usuário nos próximos poucos anos. E curiosamente, essa virada passou meio despercebida pela maior parte dos entusiastas.

E o protagonista dessa virada épica não foi Mark Shuttleworth e sua maravilhosa Canonical, nem foi Richard Stallman com suas bravatas polêmicas que fazem muito barulho e pouco efeito. Muito menos Linus Torvalds, eternamente mergulhado em questões profundamente técnicas de kernel e código.

Quando em 2020 você usar o seu dispositivo Linux pra olhar pro passado e pesquisar quem foi o grande responsável pelo software livre ter dominado a informática, vai ver o nome de um dos maiores inimigos da liberdade do mundo tecnológico. Vai ver o nome de um cara que só pensa em sistemas fechados e de vender tudo pra uma elite seleta com muito, muito lucro. Vai ver o nome de alguém que é odiado por toda a comunidade de software livre, ao mesmo tempo que é endeusado pela sua legião de tietes inabaláveis. Sim, ele mesmo que você está pensando....

"E no segundo dia, Jobs disse:
Faça-se o tablet!"

"Clarion, você está delirando???"

Tá bom, vamos começar a colocar ordem na casa. A despeito de suas enormes superioridades técnicas, sejam elas reais ou imaginárias, o Linux esteve eternamente relegado a uma participação irrelevante nos computadores. O motivo nunca foi técnico, mas cultural e mercadológico.

Primeiro, mais ou menos como o dilema de Tostines, as grandes empresas não programavam pra Linux porque ele era pouco usado, e ele era pouco usado porque as grandes empresas não programavam pra Linux. Então como os usuários mais avançados precisavam usar Corel, Photoshop ou algum outro programa profissional, acabavam presos ao Windows ou forçados a usar alguma gambiarra. Idem para jogos famosos com gráficos pesados.

"ZOMG socorro alguém me salve
desse sistema comunista do capeta!"
Mas claro que a maioria das pessoas só usa o computador pra tarefas simples - aí entra a questão cultural. Se você der um PC com Linux pra uma pessoa comum sem falar nada, ela vai usar tranquilamente durante dias, provavelmente sem nunca perceber que está num sistema diferente. Mas se disser "vou te dar um PC com Linux" ela provavelmente vai surtar, dar um faniquito, bater a cabeça na parede e cair no chão aos prantos dizendo que nunca vai conseguir aprender a usar esse negócio complicado.

Por isso as eternas previsões de ano do Linux sempre estiveram erradas. A situação do Linux nunca foi uma questão de qualidade, segurança ou estabilidade do sistema, mas sempre uma questão de status quo. O Windows era o primeiro porque chegou primeiro e as pessoas comuns, que naturalmente já morrem de medo de informática, entram em surto à menor menção de mudança. Isso era um fator que não podia ser derrotado jamais.

Nem mesmo a Apple com sua legião de fãs era capaz de enfrentar a Microsoft no seu campo de batalha, os desktops. Tanto o Linux quanto os Macs até tentavam enfrentar o Windows, mas a luta era tão patética quanto duas criancinhas tentando derrubar um lutador de sumô.

"Esse ano a gente consegue!"
Aí que entra o todo-poderoso Steve Jobs. Tudo mais ou menos começou em 2007 com o lançamento do iPhone, mas o passo decisivo aconteceu mesmo em 2010, com o iPad, aquele quadradinho mágico de internet portátil.

A grande sacada da Apple foi tirar a luta do ringue onde a Microsoft domina. Ao contrário dos computadores comuns, os smartphones e tablets são um tipo relativamente novo de aparelho, e ninguém tem um pré-conceito do que é um sistema "certo" pra eles. São um tipo novo de computador, portátil, onde conta mais rodar programas com agilidade, simplicidade e segurança do que ser parecido com o sistema anterior.

Enfim, era um mercado novo, sem um líder dominante monopolista. A disputa estava em aberto, e a  Microsoft até tentou entrar cedo na briga - mas colocar o Windows num dispositivo móvel portátil foi tão eficiente quando carregar lutadores de sumô numa caminhonete de passeio...

"....ou lutadoras."
Resumindo, a Microsoft falhou desastrosamente em colocar seu obeso Windows nesses aparelhinhos, e precisou voltar pra estaca zero pra preparar um sistema mais adequado. Por outro lado a Apple, que virtualmente criava esse novo mercado sozinha, nunca foi muito fã de popularidade - ela gosta de lançar produtos seletos, para um público de elite, sem se misturar muito com a gentalha. O resultado foi que esse novo mercado ficou com um espaço aberto pro Linux entrar e conquistar o seu espaço antes que alguma nova empresa monopolista o fizesse. E foi exatamente isso que aconteceu.

"Avante, exército de robôs Linux!"
Sim.... se você não sabia, sabe agora.

O Android, que atualmente sai equipado oficialmente em mais de 200 mil aparelhos por dia (e extraoficialmente em incontáveis xing-lings), é mais um sistema baseado em Linux. Graças a ele, fabricantes de nível mundial como Motorola, Sony e Samsung estão vendendo dispositivos Linux, e as pessoas estão adorando!

"Diversidade é para maricas."
(Steve Jobs)
E graças a essa diversidade de fabricantes, ao contrário dos produtos "tamanho único" da Apple, existem Androids de todos os tamanhos, cores, sabores e preços. O resultado é que rapidamente os celulares Android atropelaram as vendas de iPhones e os tabletets seguem para o mesmo caminho. Hoje, quase ninguém discorda que a Apple não tem a menor chance de chegar à hegemonia nessa nova geração de computadores, e muito menos a Microsoft. Carregando a bandeira do Linux, o Android segue firme e forte para consolidar o segundo lugar que, dependendo da fonte da notícia, já conquistou.

Espera aí, eu disse segundo?

Sim, segundo lugar. A liderança absoluta ainda é da Nokia, e mesmo o Android ainda está bem longe dela no mercado. Ainda por cima, ela já deixou bem claro que não pretende adotar o robozinho verde nos seus celulares. E isso é a melhor parte da notícia.

Hã? Como assim?

Simples. Associada à Intel, a líder Nokia está desenvolvendo o seu próprio sistema para celulares, o MeeGo.  E ele é - adivinhem - baseado no Linux. Isso significa que temos o novo nascente mercado de informática duplamente dominado pelo Linux, com dobradinha no pódium. O que é bom não só pela vitória final do software livre, mas também pela preservação da diversidade.

"Ah Clarion, mas são só dispositivos esquisitinhos portáteis. O Windows vai continuar dominando os desktops."

Verdade. Mas também é verdade que os desktops vão ficar cada vez menos relevantes no mundo da informática. Estudos sérios já apontam 2013 como o ano que os acessos móveis vão ultrapassar os acessos de desktop, e já tem gente achando esses estudos conservadores demais. Quem já teve oportunidade de usar um tablet sabe que isso faz muito sentido.

E, se levarmos isso a sério, mais uns poucos anos e os PCs tradicionais serão esquecidos em nichos mais esquisitos como profissionais de áreas específicas e hardcore gamers (acreditem, vocês são muito menos numerosos do que se acham). A grande maioria das pessoas comuns vai estar usando smartphones, tablets e outras variações de dispositivos portáteis que surgirão a partir de agora. E adivinha quem vai estar dominando esses sistemas?

É isso.... de agora em diante, quando você ler uma matéria falando sobre o ano do Linux, ria dela por outro motivo: O Ano do Linux já passou.


8 comentários:

  1. Comecei a pensar sobre esse assunto quando sairam os primeiros smartphones que não usavam sistemas baseados no Windows, e mais ainda quando começaram a utilizar o Android. É a velha história da mudança de paradigma: só acontece se alguém questionar.

    Ótimo post! Valeu.

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  2. Li hoje uma notícia que diz que 300 mil aparelhos com Android são vendidos por dia.

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  3. Não vejo polêmica alguma...
    Vejo uma bela observação!

    Parabéns pelo excelente post!

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  4. cara eu adorei meu a 1200 pena que me desfiz dele mas linux e o que a o futuro e linux sem duvida

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  5. Post legal mas na minha opinião a apple "nao entra em nada" , e aquele "santo" ali fez o sistema OSX NER ?? --HAUHAUHAUAH
    Como disse o Paulo Henrrique: O futuro é LinuX

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  6. Raphabiel

    Sobre os produtos da Apple:

    1) Eu acho magnífica a velocidade e capacidade de processamento dos Ipods e Ipads da vida. Até hoje não encontrei nada que se compare e ainda vai chegar o dia em que eu vou ver o sistema travar.

    2) Aliado ao 1, são aparelhos MUITO RESISTENTES. Ahn? Tamo falando de virtual e vc me vem colocar isso no topo de importância? SIM! PC, notebook, netbook, gadgets digitais divertos, netbooks (esse então nem se fala)quebram e tem defeitos muito facilmente (além do sistema começar a travar em 1 semana de uso, independente se vc acessou a internet para justificar a presença de um virus).
    Um iPod você pode deixar no seu bolso suado e derrubar no chão várias vezes que não acontece nada.

    3) Por conta disso, valem o preço caro cobrado.

    4) Mas ainda assim, tirando meu Ipod das antigas p/ ouvir música e que funciona mto bem até hoje, eu não daria 10% do valor por um Ipad.
    São sistemas muito fechados que só permitem que você utilize o que é oferecido pela loja da Apple. Prefiro dar os mesmos 10% num xing-ling para as simples tarefas necessárias na minha atividade universitária.

    Vamos falar a verdade, dos 10.000 recursos de um "i" da vida, os garotos só usam os joguinhos bobos (o que me faz tremer de ódio ao ver 1000 investidos p/ jogar joguinhos dignos de atari) e o pessoal mais velho só a internet ou agenda eletrônica.

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  7. Não se minha informação é correta, mas li em um blog que quem vai ocupar os Nokia e a microsoft e a fonte e de confiança, só colocar no google tem chove confirmaçoes

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  8. A Nokia realmente firmou parceria com a Microsoft. Vão substituir os defasados Symbian pelos Windows 7 phone. 
    Ela quer reconquistar esse mercado de smartphones perdido (de bobeira) com essa parceria firmada com a Microsoft.

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